Documentação & Método
Conceição das Pedras

Conceição das Pedras

Chegamos debaixo de chuva. José Eliseu nos esperava no terreiro, abriu o portão, mas o border collie Max chegou primeiro. Decidimos ficar.                     A casa fica no meio dos cafezais, em Bairro do Turvo, no sul de Minas. Do outro lado da estrada vivem os pais do Eliseu, cafeicultores naquele vale há gerações. É uma vida silenciosa e cheia de histórias, de piadas que se repetem porque ainda fazem rir, de gente que entra sem bater.                     Passamos o dia caminhando pelos talhões. Ele me mostrou, um a um, os modos como cuida da terra: as plantas que atraem os insetos que comem as pragas do café, a cobertura viva que segura a umidade, os adubos minerais orgânicos no lugar dos químicos. A vontade dele de compartilhar o que sabe ficou comigo. As expressões eram tão vivas que não consegui capturar um instante parado.                               À noite, fomos até a cidade buscar carne e cerveja. O Eliseu acendeu a brasa e fizemos um churrasco mineiro. Conversamos sobre tudo e sobre nada, sobre o tempo, o preço do café, o dia a dia da casa. A Li, esposa dele, ia e voltava com os três filhos, uma família inteira que vive do trabalho entre o Eliseu e a sua terra.                     Muito antes da agricultura regenerativa chegar ao vale como linguagem, o Eliseu já cultivava assim. Trabalhando sozinho, na mão, quase sem insumo químico, não por posição, mas por costume. Pelos cursos do SENAR, a prática foi ganhando nome. O instinto encontrou vocabulário.                     Ele tem o selo Regenagri pela cooperativa, mas o selo é quase secundário. Para o Eliseu, a agricultura regenerativa é menos uma posição de mercado e mais uma posição pessoal. Cuidar das plantas, ele diz, é também cuidar de si.                               Dos vinte e sete produtores do vale, é o único que trabalha desse jeito. A barreira, ele acredita, não é ideológica. É a comodidade. O sistema convencional permite uma aplicação e um passo para trás. O regenerativo pede retorno, e retorno de novo.                               As chuvas vêm menos previsíveis. As secas, mais duras a cada ano. Onde antes sete sacas de cereja davam uma de café verde, agora são dez. Ele acredita que o manejo regenerativo ajuda, que o solo segura água por mais tempo, que a planta aguenta o estresse com mais firmeza. Já não há certeza nesse trabalho. Há o que a terra está disposta a dar, e o que ele está disposto a oferecer em troca.                             Separa as colheitas em vez de misturá-las, em microlotes que refletem a variedade e o talhão de origem. Vende direto, sem corretor, sem atravessador, pelo boca a boca e por contatos próprios. Torrefadores grandes já procuraram, oferecendo preços que ele considera injustos pelo trabalho. Aprendeu a esperar pelos certos.                     Dois acres novos, plantados há pouco. Mil e quinhentas mudas de Geisha sob manejo regenerativo. Paraíso e Graúna estão por vir, planejados junto com a gente da Jaguatirica. Para o Eliseu, regeneração não é tendência, e não é selo. É um jeito de cultivar que mantém a terra produtiva, as plantas saudáveis, e o trabalho cheio de sentido.                     Saímos cedo, no dia seguinte. O café da manhã na cozinha, a despedida demorada que os mineiros fazem, dois, três tchau antes de o carro andar. Levamos com a gente as fotos, as anotações, e a sensação que sempre fica depois de uma noite naquela casa: a de ter sido recebido por gente que ainda acredita no que faz.          

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